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Home RVCC RVCC - 12º Ano O meu discurso

O meu discurso

Testemunho sobre o meu percurso nas Novas Oportunidades.

 

A quando da entrega do Diploma e Certificado de conclusão do Ensino Secundário, fui convidado a testemunhar e partilhar a minha visão sobre este processo de RVCC, nível secundário. Agora quero partilhar com os meus seguidores, essa nova experiencia de discursar perante uma assembleia apinhada de colegas e familiares que neste dia 9 de Abril de 2011, estiveram presentes no NERA.
Foto de Madalena Barbosa

 

 

 

-Boa tarde mesa.

Senhores e senhoras.

É com grande satisfação que estou representando os adultos do Centro das Novas Oportunidades de Loulé, sediado no Núcleo Empresarial da Região Algarve, designado por NERA.

Chamo-me Luís Santos e pediram-me que desse o meu testemunho nesta sessão de entrega de diplomas, tentando partilhar com todos vós uma pequena reflexão dos bons momentos que aqui tenho passado.

Já vai longe o dia que entrei neste Centro de Novas Oportunidades pela primeira vez.

Recordo, recuando a Janeiro de 2008 quando instintivamente, dirigi-me ao Centro de Emprego de Loulé, que posteriormente me encaminharam para esta casa. Aqui, timidamente dei os primeiros passos no sentido de elevar o meu grau académico, que era o 6º Ano do antigo ciclo.

Antes de 2008, dediquei 27 Anos da minha vida à profissão de carpinteiro, sem me preocupar se estava a ficar desactualizado, quase resignado ao pensamento de que o meu tempo já tinha passado, e que infelizmente estava condenado a ficar com a escolaridade obrigatória vigente na década de 80.

Não podia estar mais enganado. Nestes últimos 3 Anos empregues em novos conhecimentos, pode Validar e Certificar as minhas competências, julgadas nulas, ao longo de uma vida de trabalho.

Descobri novos Horizontes e novas potencialidades desabrocharam à minha frente.

Hoje, olhando para trás, tenho dor de não ter continuado os estudos quando era o tempo regular de estudar. Ao mesmo tempo, penso que poderia ter seguido outro caminho. Mas, se tivesse estudado, certamente não seria a pessoa que sou hoje.

Agora, dou mais importância a cada conquista, por pequena que seja. Agora, sou eu que estou empenhado em valorizar-me academicamente e pessoalmente.

A vida é aquilo que conseguimos construir em cada momento. Hoje, estou construindo um novo futuro, lançando novas sementes à terra, convicto, naturalmente, de que todo o meu empenho, tanto no anterior processo como nesta nova caminhada para o 12.º Ano, que culmina hoje, traga os frutos que ambiciono.

O meu entusiasmo, acima de tudo, premeia um único objectivo: provar à minha família que, por não ter tido a oportunidade de estudar, não sou menos capaz do que aqueles que hoje são doutores. Já que, para mim, não tenho dúvidas das minhas capacidades e, se elas faltassem, ao menos tenho o bom senso de agir em conformidade com as situações.

Depois de alguma relutância em abraçar este projecto do 12º Ano, que conscientemente sabia ser mais exigente, fui aos poucos amadurecendo a ideia com a persistência de alguns amigos que conseguiram que eu acreditasse que também era capaz.

A minha expectativa inicial era bem diferente da que tenho, após ter concluído muito atempadamente os propósitos que me trouxeram até aqui. Sabia que os moldes eram diferentes mas, desconhecia totalmente o Referencial e os preceitos que iriam guiar a minha vida nos cinco meses que durou o meu processo.

A dificuldade superior em atingir os créditos foi mais notória durante as primeiras secções de descodificação do Referencial, por parte das formadoras. Ir de encontro ao Referencial seria bastante difícil sem a elaboração da descodificação dum manual bastante exigente. Só a meio da jornada é que fui incorporando a forma de atingir o objectivo numa fase em que já estava a ficar cansado.

A dada altura tive que impor a mim próprio uma determinada fasquia em número de créditos para criar força e empenhar-me em conseguir atingir o principal objectivo.

Este método de trabalho evidenciou competências ocultas e desenvolveu outras que ao longo do tempo foram germinando, dando lugar a uma nova vida que descobri dentro do meu ser.

No longo trabalho, desenvolvido nas 300 páginas do meu Portefólio, tive ocasião de registar multi-variados temas transversais da sociedade em que vivo e das vivências que a vida me proporcionou ao longo dos meus 44 anos, intensamente vividos, amadurecendo diariamente comportamentos e posturas politicamente correctas, outras vezes não.

Manifesto grande preocupação sobre o futuro de Portugal como nação e terra independente para as gerações futuras. Parece-me que o meu país está fechado à espera que haja comprador interessado. Preocupa-me bastante a evolução que globalmente os líderes políticos estão trilhando para Portugal e para o Mundo.

A Terra, onde temos o nosso quarto, pode ruir a qualquer instante. O planeta está enviando sinais. Falta-nos a humildade de interpreta-los e agir em consonância com os nossos conhecimentos.

No que respeita às pessoas, como seres humanos, abordei a pobreza envergonhada e crescente que vejo nos rostos daqueles que se cruzam comigo. A velhice e os maus tratos a que são sujeitos. A eutanásia como remédio final para quem sofre sem perspectivas de melhorar, resolvendo desta trágica maneira a falta de cuidados paliativos.

Falei da evolução de práticas terapêuticas tradicionais na prevenção de várias doenças como, por exemplo, a Sida. Dei o meu testemunho das medicinas alternativas e das benzeduras que se acredita terem o poder de ainda curar.

Para conservar um bom ambiente debrucei-me sobre a reciclagem, os incêndios, os constantes derrames de crude no oceano, a temperatura em constante mutação e as catástrofes daí resultantes. Falei da água como, o bem, mais precioso e necessário à conservação da vida na terra.

Falei das energias alternativas, não esquecendo que é preciso humanizar pensamentos, actos e omissões na busca da paz mundial.

O homem foi à Lua, vive fora do planeta terra em estações espaciais, antevendo uma nova forma de vida extra terrena. Na terra, acontecem situações que ficam para resolver juridicamente como o desaparecimento de Maddie.

Utiliza-se a Internet para ligar pessoas e facilitar contactos profissionais agilizando procedimentos burocráticos. Essa mesma Internet serve para piratear e contar versões extrapoladas manipulando opiniões de pessoas e instituições.

Falei dos meus sonhos e concretizações pessoais. Contei como construí a minha casa. Abri o meu coração e escrevi o que penso, quando penso e daquilo que penso. Tenho a minha opinião formada embora, muitas das vezes, pelas vicissitudes da vida não possa ser assertivo como os outros gostariam. Sou Leão e escrevo o que vai na alma sem medos de represálias.

Como filosofia de vida adoptei a capacidade de impedir pensamentos negativos e de vingança que corroem a mente e nos levam à loucura. Escrevi sobre a 2ª guerra e o 11 de Setembro que mudou a forma como nos encaramos uns aos outros.

Com a Revolução dos Cravos, nasceu a democracia. Tudo se pode fazer e dizer. A mentalidade ficou mais exposta aos perigos e ao fascínio do dinheiro fácil. A evolução científica e tecnológica abriu horizontes a toda a população, para o bem e para o "menos bem". O distanciamento das pessoas fez-se notar ao longo destas três décadas.

Cada um pensa para si. Tornámo-nos egoístas e sem compaixão pelo próximo.

Medíocres e tristes, porque, não tendo o nível de escolaridade dos outros países, acreditamos que o nosso fado é a submissão.

E sentimo-nos, ainda por cima, orgulhosos da nossa maneira de ser, retrógradas, pessimistas, com uma lágrima no canto do olho. Fechados à nossa firme devoção ao pessimismo.

Os modos linguísticos nesta parte da nossa história recente evoluíram em muito, devido aos avanços tecnológicos e científicos, que ao menos esses são sadios e trouxeram até nós a realidade do mundo globalizado e civilizado. Aprendemos outras culturas e adoptámos termos linguísticos modernos.

A televisão passou a ser pluralista e, embora ainda estatizada, contribui para olharmos através dessa janela para outras formas de enriquecimento cultural, abrindo horizontes até então barrados ao conhecimento, influenciando e estandardizando comportamentos, modos e estilos de vida, opiniões e tendências globais.

Muito sinceramente, acredito nas capacidades dos portugueses e tenho esperanças de que um dia ainda vamos dar cartas, como há 500 anos os nossos heróis navegadores partiram à conquista, dando novos Mundos ao Mundo

A terra já foi habitada por seres gigantes como os dinossauros, agora somos nós, mais pequenos e mesquinhos. Amanhã não sabemos.

Presenteei as minhas formadoras com uma visita à minha cidade.

Loulé é a minha terra, donde gosto de partir à descoberta, mas onde é mais saboroso regressar.

Escrevi a minha história de vida e de trabalho, no começo forçado, mas fui aprendendo a gostar. Hoje não me vejo a fazer outra coisa. Sou carpinteiro e gosto de brincar com as palavras.

Gosto de escrever e isso traduziu-se na vastidão das folhas em branco que ocupei com os meus pensamentos.

Naquele tempo de há 30 anos, não me foi dado a oportunidade de estudar. Agora sou eu e mais um vasto grupo de profissionais presentes nesta casa, que me proporcionaram, esta Nova Oportunidade.

Por este Centro já passaram largas centenas de adultos ávidos de novos conhecimentos.

Eu sou apenas um, entre muitas pessoas válidas, que apenas precisaram de uma oportunidade.

Obrigado a todos.

9 De Abril de 2011